O Meuleskine

by outrasluzes

J.E. Agualusa, no seu artigo intitulado «Chatwin e os Moleskines» (Revista LER, Nº75, Dezembro 2008), escreve: «Hoje em dia comprar um Moleskine é o primeiro passo para iniciar uma carreira literária. Repararam naquele rapaz de farta cabeleira ruiva, sentado diante de vocês, no metro, que a determinada altura puxou de um Moleskine? Ah, tremei – um escritor!»

Não sendo a minha cabeleira ruiva, nem tão pouco farta, não pude deixar de prestar atenção ao artigo, sendo eu um comprador de Moleskines. Algumas reflexões se me levantam. Serei eu um putativo escritor? Bem, na verdade, logo após o manuseamento de um cahier de capa negra, contido num pack de três, eis que me surge a inspiração e escrevo um poema. Não um poema qualquer, mas um poema dedicado ao meu filho João. Se isto não é um sinal revelador de uma certa experiência mística, ainda que não sob efeito de mescalina, então não sei como interpretar aquela luz branca e forte, tipo flash, que me quase cegou e me impeliu, de imediato, a mão para tão escorreita e automática escrita. Ora, leiamos.

O João sou eu

O João é um pedaço de mim que se soltou.
Nesse pedaço vejo agora braços e pernas e boca e olhos.
Do seu olhar sai um meu pensamento.
Atravessa-me.

Quando o contemplo, vejo um pedaço de mim que se soltou.
O João é um pedaço solto que tento moldar.
O João tem vida e escorrega-me das minhas mãos de sabão.
É um pedaço de mim que não é meu.

O João é um pedaço dos meus pedaços todos juntos.
O João sou eu.

Eis que treme o Café Gelo perante tal manifestação de mau gosto, nem sequer digna de um aspirante a poeta. Vejo-me obrigado a concordar com Agualusa. E vejo-me também obrigado a concordar com Vila-Matas, quando o escritor revela que o maior terror que sentiu foi quando descobriu que para se ser escritor era necessário escrever. Justamente, como eu me sinto neste momento. Para se ser poeta é necessário fazer poesia, diria qualquer leigo na matéria. O meu Moleskine não fez de mim um poeta.

Corro para a livraria onde deixei uns apetecíveis 15 euros e reclamo vivamente com a simpática senhora, de rosto delicado, pelo facto de, o meu Moleskine, não ter feito de mim um escritor. E mais lhe digo. Digo-lhe que não entendo a razão pela qual o meu Macbook não faz de mim um geek, a razão pela qual os livros que carrego na Faculdade não fazem de mim um Doutor, e que também não entendo uma série de outras promessas encapsuladas em sonhos. Porquê? Se todos os que entram num Centro de Novas Oportunidades saem de diploma na mão! «Quero um CNOS para poetas», digo-lhe. A senhora olha para mim com um ar de compaixão ensimesmado.

Eis quando reparo que o meu Moleskine é um Meuleskine.

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